Copa: quem são os bilionários dos EUA por trás das pausas para hidratação que o futebol adotou
As pausas para hidratação, conhecidas internacionalmente como cooling breaks, consolidaram-se como um dos símbolos da crescente influência dos bilionários americanos sobre o futebol mundial. A FIFA apresenta-as como uma medida para proteger atletas em condições de calor extremo. Contudo, também abriram uma nova e lucrativa fonte de receita para emissoras de televisão, patrocinadores e investidores ligados aos desportos dos Estados Unidos.
Para muitos torcedores, as interrupções representam uma descaracterização do futebol. Tradicionalmente, o desporto é marcado pelo fluxo contínuo do jogo. A crítica é que estes intervalos não servem apenas para hidratação, mas também para criar espaços publicitários semelhantes aos existentes no futebol americano, no basebol e no basquetebol.
Uma mina de ouro para as emissoras
Os direitos de transmissão representam uma das principais fontes de receita da FIFA, ao lado da venda de bilhetes e dos contratos de patrocínio. As pausas para hidratação ampliaram ainda mais esse potencial.
A emissora americana Fox pagou cerca de 485 milhões de dólares pelos direitos de transmissão da maior parte dos jogos da Copa. Adicionalmente, em cada pausa para hidratação, a rede ganha aproximadamente dois minutos e dez segundos para exibir publicidade. Na prática, isto significa quatro anúncios de 30 segundos por intervalo. Como normalmente há duas pausas por partida, são oito anúncios extras por jogo. Consequentemente, num torneio com 104 partidas, isto representa 832 novos espaços publicitários.
Segundo o The Wall Street Journal, a Fox cobra cerca de 200 mil dólares por um anúncio de 30 segundos durante partidas da fase de grupos. Quando a selecção dos Estados Unidos entra em campo, esse valor pode chegar a 750 mil dólares. Por sua vez, o Sports Business Journal estima que a emissora possa facturar cerca de 250 milhões de dólares apenas com os anúncios exibidos durante as pausas. Se o valor médio dos anúncios aumentar ao longo da competição, a receita pode ultrapassar 330 milhões de dólares.
O modelo americano invade o futebol
A expansão deste formato está directamente ligada à chegada de grandes investidores americanos ao futebol europeu. Diferentemente do futebol, desportos como a NFL, a NBA e a MLB estruturam-se em torno de inúmeras pausas para publicidade. Segundo o mesmo jornal, os anúncios ocupam aproximadamente uma hora de uma transmissão típica da NFL.
Muitos dos empresários que hoje controlam clubes europeus construíram as suas fortunas precisamente neste modelo. A família Glazer, proprietária do Manchester United, controla igualmente o Tampa Bay Buccaneers. Todd Boehly, dono do Chelsea, é um dos controladores dos Los Angeles Dodgers e dos Los Angeles Lakers. Já John Henry, dono do Liverpool, controla também o Boston Red Sox. Adicionalmente, Arthur Blank, proprietário do Atlanta Falcons, possui igualmente o Atlanta United FC.
A tomada do futebol europeu
De acordo com o CIES Football Observatory, investidores americanos possuem actualmente participações em 117 clubes europeus. Em 2018, apenas 25 clubes europeus tinham participação de capital americano. Hoje, esse número é quase cinco vezes maior.
Segundo o levantamento, mais da metade dos clubes da Premier League inglesa possui investidores americanos. Adicionalmente, mais de um terço dos clubes da Serie A italiana está sob influência destes grupos. Por fim, mais de um quarto das equipas da Ligue 1 francesa conta com participação de capital dos Estados Unidos.
Clubes baratos, lucros potenciais gigantescos
A principal razão para esta corrida ao futebol é financeira. Segundo o Financial Times, uma franquia da NBA costuma ser avaliada em cerca de 14 vezes a sua receita anual. Já um grande clube europeu vale, em média, apenas 4,2 vezes o seu facturamento. Consequentemente, muitos investidores enxergam o futebol como uma pechincha.
Sete dos quinze clubes mais ricos do mundo já pertencem a bilionários americanos ou fundos de investimento dos Estados Unidos. Entre eles estão o Arsenal, controlado por Stan Kroenke, e o Atlético de Madrid, que recebeu investimentos da Apollo Global Management.
A visão de Infantino
As pausas para hidratação são apenas uma parte desta transformação mais ampla. Elas reflectem uma tendência na qual investidores americanos tentam aplicar ao futebol o mesmo modelo de negócio que domina a NFL, a NBA e a MLB. Não por acaso, quando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi criticado pelos preços elevados dos bilhetes das competições organizadas pela entidade, respondeu que os valores estavam alinhados às tendências do mercado americano.
Para os críticos, as pausas para hidratação deixaram de ser apenas uma medida de protecção aos jogadores. Tornaram-se, assim, mais um instrumento da crescente americanização do futebol e da influência dos bilionários dos Estados Unidos sobre o desporto mais popular do planeta.




