Relógio a contar: Muchanga dá ultimato a Momade e quer nova liderança na Renamo antes de Novembro
António Muchanga não tem pressa para escolher palavras. Para o antigo porta-voz da Renamo, o partido que durante décadas desafiou a Frelimo está a perder-se a si próprio e o homem responsável por isso tem nome: Ossufo Momade. A solução também tem nome: congresso extraordinário, nova liderança e uma decisão antes de Novembro.
A mensagem foi entregue em Vilankulo, na província de Inhambane, mais uma paragem numa tournée política que já passou por Zavala, Morrumbene e Massinga. Muchanga percorre estruturas partidárias à procura de apoio para forçar mudanças que a direcção, no seu entendimento, continua a adiar.
“A Renamo está a morrer aos poucos”
O diagnóstico de Muchanga é duro. O partido que chegou a ser a segunda maior força política do país está, nas suas palavras, a “morrer aos poucos”. A perda do estatuto de principal força da oposição parlamentar após as eleições de 2024 aprofundou uma ferida que o antigo porta-voz considera não estar a ser tratada.
Para Muchanga, o problema começa no topo. Ossufo Momade, que lidera a Renamo desde a morte de Afonso Dhlakama em Maio de 2018, tornou-se, segundo o crítico, um líder ausente dos grandes debates nacionais. A violência terrorista em Cabo Delgado, a situação de moçambicanos na África do Sul, o custo de vida, o descontentamento de professores, médicos e magistrados em nenhum destes assuntos Muchanga encontrou a voz que esperava ouvir do presidente do partido. “O nosso chefe tornou-se mudo, tornou-se surdo”, disparou em Vilankulo.
Uma contestação que já passou pelos tribunais
A pressão sobre Momade não nasceu ontem. Em Fevereiro, Muchanga e Alfredo Magumisse já exigiam publicamente a renúncia do presidente. Em Maio, voltou à carga. Em Julho, anunciou que recorreria à Justiça para forçar a realização de um congresso, acusando a direcção de bloquear o funcionamento dos órgãos internos.
A disputa chegou mesmo aos tribunais depois de o partido ter suspendido Muchanga. A decisão foi anulada judicialmente, o que o antigo porta-voz interpretou como validação da sua posição. Adicionalmente, a contestação cresceu para além de Muchanga, envolvendo antigos combatentes, quadros seniores e estruturas locais que ocuparam instalações partidárias para exigir mudanças.
O calendário como arma política
Em Vilankulo, Muchanga acrescentou um elemento novo à pressão: o tempo. Segundo o antigo deputado, a Renamo não pode entrar em Novembro sem saber quem a vai liderar. Não por razões simbólicas, mas práticas. O partido precisa de tempo para reorganizar as estruturas, reconstruir a máquina eleitoral e preparar-se para as próximas eleições autárquicas. Cada semana de indefinição é uma semana perdida.
“Não podemos chegar a Novembro com esta situação de indefinição dentro do partido”, advertiu Muchanga, deixando claro que a responsabilidade recai sobre Momade. O antigo porta-voz chegou a pedir aos membros em Inhambane que “orem” para que o presidente reconheça os erros cometidos durante a sua liderança e aceite uma transição ordenada. Contudo, foi igualmente claro: essa transição passa necessariamente pela saída de Momade.
Uma proposta concreta para sair da crise
Ao contrário de outras críticas que se limitam à exigência de saída, Muchanga apresenta em Vilankulo uma proposta com passos definidos. Primeiro, o Conselho Nacional deve reunir com urgência, algo que, segundo o antigo porta-voz, não tem acontecido com a regularidade que os estatutos exigem. Depois, a partir dessa reunião, deve ser convocado um congresso extraordinário para eleger uma nova liderança.
Para Muchanga, o legado da Renamo, construído nas trincheiras da guerra civil e consolidado como força de oposição, merece uma liderança à sua altura. Em Vilankulo, a mensagem ficou clara: o partido já não tem tempo para discutir se deve mudar. Precisa de decidir quem o vai liderar na mudança.




